Educação ou Educação
Desde crianças ouvimos promessas dos políticos de atender as necessidades da população e promover o desenvolvimento. A educação e a saúde são prioridades em todos os discursos, planos e propostas. Os mandatos se sucedem, os partidos formam frentes, a modernidade revisa os discursos, novas tecnologias redesenham a interdependência entre os povos, o século mudou e, justamente as duas maiores necessidades permanecem estagnadas, carentes, uma presa na parede dependendo de um giz e a outra do estetoscópio de plantão. – Que tristeza!
Tudo isso porque nossos administradores públicos não conseguem evoluir da fase pedreiro. Ficam felizes em dizer que construíram tantas escolas, tantos postos de saúde, tantos quilômetros de asfalto, tantas pedras e tijolos mais. E a ficha não cai. Na campanha seguinte lá está ele relembrando e martelando seus concretos.
Nem tudo é escuridão. Comunidades mais atentas questionam o sentido do verdadeiro desenvolvimento e movem-se experimentando investimentos nas pessoas. Mesmo não sendo uma política pública, constitui um traço benigno de intervenção na difícil realidade. O caso mais característico é o investimento na formação musical em Volta Redonda, que firma-se como uma tradição de qualidade que já conta décadas, desde, desde o trabalho determinado do Maestro Franklin de Carvalho Júnior. O processo é lento e agora, cerca de 40 anos depois, já não parece um absurdo para ninguém o investimento em massa em cultura, envolvendo milhares de crianças.
Iniciativa semelhante ocorreu em Barra Mansa, onde a principal expressão é uma orquestra sinfônica que vem ajudando a mudar o perfil cultural do município, e o ensino da música já envolve todos os alunos da rede municipal de educação. E o prefeito parece querer mais, quando repete que desenvolvimento é amparar e desenvolver as pessoas.
São exemplos auspiciosos, apesar de avulsos. O desenvolvimento exige ambiência apropriada com todos os caminhos abertos para o patamar superior. Requer política pública orientadora de um processo educativo e sistemático. Precisa vivenciar, por as teorias em prática, reconhecer o exemplo em cada professor, pai, mãe, cada adulto, dirigente ou líder, em cada homem público, em cada cidadão. E, com certeza, o vetor dessa transformação será a educação.
Então, quando refletimos sobre o estado atual da educação, somos forçados a entender que antes de ser vetor de um novo desenvolvimento, a educação precisa ser promovida para alcançar o alto da pirâmide social, de onde caiu numa esquina qualquer do nosso passado autoritário. O caminho é longo mas exige que seja vencido papo-a-papo, passo-a-passo, mesmo porque não há alternativas.
Mudança de nome de rua em VR
O projeto de lei a ser votado pela Câmara de Volta Redonda, busca disciplinar a renomeação de ruas com base nos transtornos institucionais causados a moradores e, principalmente ao comércio estabelecido na rua que ostenta o nome de um novo homenageado. O projeto é mais que desejável. Além dos transtornos e prejuízos conexos a serem contabilizados, o projeto vai resguardar a cidade de um dano muito maior, imensurável e imaterial, porque vai preservar valores históricos dos moradores e, sobretudo, dos volta-redondenses.
Quando falamos valores, inscrevemos no memorial histórico toda a cultura coletiva contida de idéias, costumes, pessoas, lutas e tristezas, festas, vitórias e alegrias, nomes, lembranças, espaços – o perfil urbano, cores, fatos, nomes, emoções e tantos outros valores do imaginário com os quais construímos nossa identidade. A memória da emoção ocorre ante os cenários preservados que, quando revisitados constituem o objeto do desejo, do amor pela cidade, o motivo de gostar e poder dizer que é sua.
O projeto deveria ir além, poderia resgatar a originalidade da inteligente numeração das ruas dos bairros construídos pela CSN e preservar suas qualificadas características urbanas. Seria um bom começo de preservação, de respeito com o povo e consequentemente, de consideração pela sua história. Qualquer mudança, sem considerar o todo, carece de espírito público, de consciência histórica e visão holística.
Sustentabilidade é a pauta
Mesmo não acreditando que os “mercados globais” ou as “empresas responsáveis” ou os “ambientes corporativos atualizados” estejam acenando com a sustentabilidade para a manutenção da vida e a preservação do planeta, devemos acatar que, por enquanto, somente nesses ambientes os fatos podem reverberar e ganhar o mundo. As grandes corporações são eficientes e fazem valer as vontades das pessoas que as controlam. Elas são as “donas” dos maiores negócios do mundo e agora procuram também uma saída possível, para evitar que tudo se perca.
Portanto, não é pela manutenção das futuras gerações, para salvar o planeta, a natureza ou pelas criancinhas que se investe na mudança de atitude, mas para salvar a própria pele. A velha e paradoxal cartilha ensina a busca do lucro a qualquer custo, mesmo em detrimento da sociedade e do meio ambiente, e assim foi feito, como se o mercado pudesse ter vigência permanente num cenário cada dia mais danoso aos seus próprios clientes. Até aqui as mazelas oriundas desse modelo só se agravaram e o "modelo não precisou ver", porque estava tudo bem com "ele", apenas o mundo se danava. Entre outras inconseqüências, a ganância cega. O ponto de equilíbrio foi ultrapassado, as rupturas se ampliam cada vez mais rapidamente e já comprometem o modelo. Agora todos devemos nos empenhar no processo de redenção.
Sustentabilidade é um banco de três pernas - social, ambiental e econômica - e só se manterá estável com o equilíbrio entre elas. Sem esse reconhecimento a relação do homem com a vida, com o meio, será conflituosa, insustentável.
Não é difícil constatar que dependemos do equilíbrio desse banco e ele só se sustentará se as três pernas forem iguais. Enquanto prevalecer a hegemonia da "perna econômica", não haverá sustentabilidade. Menos difícil ainda é perceber que das três, duas têm a primazia pela originalidade, são condições naturais, e apenas uma perna, a econômica, foi privilegiada, valorizada, inflada, contingência que trouxe-nos a uma encruzilhada incerta, no ermo e obscuro deserto de nossos valores. Ficou feio para o homem moderno constatar que ele apenas subiu no bonde do capitalismo e acelerou tecnologicamente cada vez mais, como um doidivanas rumo ao desconhecido.
Felizmente estamos em processo de mudança. A Economista Evolucionária Hazel Henderson, constata que “ ... cientistas, incluindo o físico Prof. Dr. Hans Peter Durr, do famoso Instituto Max Planck da Alemanha, concordam que economia não é uma ciência. Durr diz que “a economia não é nem mesmo uma ciência ruim porque os seus preceitos centrais são incorretos”.
É essencial repensar nossos valores. Precisamos reconhecer no outro a saída para vida, para viabilizar o futuro. Já estamos bem grandinhos e precisamos parar de brincar de produzir o lucro pelo lucro, de gastar material didático. Já sabemos que o nosso trabalho só faz sentido se for para fomentar a segurança da terra, da vida, do bem, ou seja, de tudo que dependemos, mas fingimos ignorar. E olha que é velha a história da galinha dos ovos de ouro!
Uma dimensão imaterial
De geração em geração foi sedimentada essa cultura contida de valores agora questionados por sua impermanência. O processo de mudança exige o intensivo exercício da experimentação em busca do novo caminho. Mais do que reconsiderações em torno do patrimônio natural, do consumo, da energia, recursos materiais e sistemas que viabilizem as relações de produção e desenvolvimento, precisamos trabalhar a mudança desse novo homem que vivenciará um meio onde Deus, o amor, a compaixão e a espiritualidade serão resgatados como valores imanentes à vida. Será um estado de ser que redimensionará nossos sentidos. Teremos que rever nossas convicções e crenças e buscar novas posturas filosófica e religiosa ao construirmos esse ainda desconhecido ambiente.
A pauta é sustentabilidade e somos instados a rever os procedimentos que compõem a infra-estrutura do nosso processo civilizador. Defrontamo-nos com a síntese dialética brechtiana - “Exatamente porque as coisas estão como estão, elas assim não continuarão” - e então experimentaremos pôr em prática novas formas de ver e fazer. Vamos a um exemplo-síntese: Podemos garantir que o lixo, tal como o entendemos, não existirá, pois não há mais como jogar algo fora. Primeiro porque não existe mais o lugar chamado fora. O planeta é só este e não é sustentável designar um pedaço dele para se colocar resíduos indesejáveis para sempre, se são oriundos de matérias-primas originárias aqui do nosso planeta. Tudo é resíduo a ser aproveitado, útil e necessário, caso contrário, a atividade que o originou será considerada insustentável e, portanto, indesejável.
O fator tempo
As tecnologias são criadas para vencermos o tempo e criarmos o máximo de coisas e obtermos mais lucro. Para isso outras tecnologias dão conta de incentivar o consumo e fomentar os conceitos de inserção e participação em estilos de vida inspiradores, de forma que o capital circule cada vez mais rapidamente, com o objetivo de obtermos os melhores resultados, os lucros. Bens pouco duráveis, embalagens que embaçam a vigilância sobre o consumo responsável e materiais descartáveis são só alguns exemplos. Como essa lógica é insustentável, terá que ficar como uma lição histórica de nossa maneira afoita de investir na esperteza e no egoísmo humanos, experiência que nos permitirá contemplar também o fator tempo na equação da sustentabilidade.
À guisa de exercício projetemos além da parcimônia no uso da água: podemos ter a percepção da importância e conteúdo da cidadania de cada criança que nascer, o planejamento de quantos seremos e dos ensaios que promoverão o desenvolvimento integrado para aperfeiçoar a plenitude e a segurança da vida na terra. Enfim, será uma grande mudança, mas aos poucos, apesar da consciência, ainda não nos exercitamos o bastante para assumir esse homem de bem que precisamos ser.
Por ora pode parece estranha uma colocação como essa, mas não há dúvida que estaremos construindo o paraíso que dormita em nosso inconsciente. O Sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, deu um belo recado nesse sentido, quando utilizou fábulas para se fazer entender e exortar a sociedade à percepção de que cada um é parte de um todo. Apesar da distância sócio-cultural em que nos encontramos, perdidos numa via secundária da civilização, de tal forma que as referências para as mudanças freqüentem ainda o imaginário, na verdade estamos constatando o nosso maior e mais sério erro. Alguns dirão que deveríamos mesmo passar por esse caminho, que ele faz parte do aprendizado, já que “evoluímos”, abandonamos as formas primitivas e partimos para uma vida mais segura. Tudo bem, mas não devíamos ter esquecido as lições aprendidas com a primeira professora, a natureza. Agora precisamos abandonar a arrogância e nos submeter com humildade ao processo de reeducação e entender o todo, para que haja futuro.
Finalmente, lembremo-nos de que a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro, não apenas deixou tudo isso bem claro, como concluiu, através da decisão de 179 países, que o maior compromisso da era moderna é repensar a nossa vivência, suas circunstâncias e conseqüências, através de um processo sistêmico e com metodologia própria, a chamada Agenda 21. Quase duas décadas depois pouco foi feito. Nosso sistema produtivo dá sinais de saturação. Os valores humanos estão cada vez mais degenerados. Num primeiro momento o patrimônio natural ganha relevo, como se fosse a causa, a salvação. O mundo ainda perdido olha para o nosso grande e belo país. Sensações extemporâneas de regozijo e medo entram em cena ... “que o nosso futuro espelhe essa grandeza”.
1º de abril...!?
O Delegado Protógenes Queiroz teve o seu depoimento na CPI dos Grampos, marcado para o dia 1º de abril. A CPI conta com duas forças poderosas - a revista Veja e o STF, mas até a Associação dos Delegados Federais já se manifestou contra as investigações das atividades do Delegado Protógenes, além de todas as manifestações públicas das demais autoridades e a adesão popular, especialmente dos estudantes.
Essa CPI não está conseguindo ser feliz na consecução de seu objetivo e ainda marca o depoimento do delegado para o dia 1º de abril... Talvez seja esse o mais autêntico manifesto de intenção dessa CPI.
Todo mundo já pode
saber de tudo
A revista Caros Amigos é um trabalho de fôlego e credibilidade e, por que não dizer, de coragem. Vem esclarecendo com profundidade os diversos temas nacionais, sobretudo através das ousadas entrevistas que publica. Após ler as entrevistas do Delegado Protógenes e do Físico Bautista Vidal, entre outras, não há como não corrigirmos a nossa posição diante do futuro imediato do país.
A Revista Caros Amigos é uma publicação indispensável para quem precisa saber realmente o que está acontecendo. Infelizmente, não é nada do que a chamada grande mídia diária publica.
Se bem que em matéria de informação alternativa, ou seja, fora do controle do poder (não do Governo), temos muitas publicações, como Carta Maior, Brasil de Fato, Tribuna da Imprensa, Vermelho, além de centenas de blogs como do Azenha, Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif. Tudo de graça, na internet. Ou seja, só os desinteressados não tem informações para a tomada de posição.
- Adeus, Tulio
Faleceu dia 11 de janeiro de 2009, o pintor fluminense Tulio Cordeiro. Após sentir-se mal, foi atendido pelo serviço de saúde em São Pedro da Serra, levado para um hospital em Friburgo, porém, horas de tratamento intensivo não foram suficientes para estancar uma hemorragia estomacal. Foi sepultado em São Pedro onde mantinha um ateliê. Aos 59 anos Tulio estava na ativa e participando de eventos. Ainda circula pela Europa uma exposição de artistas brasileiros que inclui seus trabalhos. Instalada em setembro na embaixada brasileira em Londres, exibia o próprio Tulio em um dos cartazes.
Morava no Rio de Janeiro com a família. Sua trajetória artística passa por muitos cenários e situações distintas. Jovem ainda Tulio fez parte do Movimento Beatnick, precursor do Movimento Hippie, grupo que ocupou com grande rumor o casarão da rua Riachuelo, na Lapa, Rio, no início dos anos 60. Nessa época sua família participou de negócios em Volta Redonda e ele ficou pela cidade até meados dos anos 70. Depois de estadas no interior, com índios e viagens pela América do Sul, foi para a França, vivenciou o universo artístico da Europa em alguns países durante alguns anos, foi para a Argentina, onde viveu mais alguns anos e voltou definitivamente para o Brasil, foi para Búzios, instalou uma galeria de arte. Há cerca de 20 anos passou a morar no Rio de Janeiro, mais precisamente em Santa Teresa. Mantinha um ateliê em São Pedro da Serra, na região serrana, para onde viajava constantemente.
Túlio Cordeiro tem suas obras em vários países, em galerias e com colecionadores. É recorrente a abdicação de seu impressionismo no realismo fantástico. É parte de sua instabilidade. Não se isentava da realidade para pintar, quase sempre deixou vazar para a sua obra os dissabores de sua interface com mundo real. Em função dessa inconstância, ora seus quadros revelam a alma do artista, seu largo conteúdo cultural e convicções filosóficas e ora dialogam com o momento, entregue ao arrebatamento ocasional de um tema, emoção ou ocorrência. É aqui que ele mais se aborrecia, pois estava sempre a construir uma resposta pertinente e quando ela se apresentava, a pergunta parecia desaparecer.
Tanto a tentativa de abstrair-se para se isentar, como a de integrar-se no sentido de enfrentar, causam transtornos ao processo de criação. Ao artista é necessário tão somente o exercício periódico do distanciamento, para que formule a sua postura crítica e fomente o seu discernimento criador. Em Túlio parece que a técnica utilizada era um componente que ajudava nesse mister. Enquanto utilizava o bico de pena mantinha-se mais despojado, mais livre.
Principalmente nas duas últimas décadas pintou muito do ambiente noturno, com os personagens típicos dos bares, balcões e salões de gafieiras. Um desses trabalhos é o painel ao longo da escadaria da Gafieira Estudantina, no Rio, quando da reinauguração comemorativa dos 70 anos da casa.
Artista plástico por vocação, trabalhou com artesanato antes de pegar o pincel ainda na década de 60. Desenhava em guardanapos em mesas de bares, enchia de cruzes e sepulturas todo espaço em branco que via pela frente. Época em que escrevia a coluna Fossário no antigo jornal Presença, em Volta Redonda, enquanto participava de um grupo que utilizava recursos diversificados como teatro, música, poesia, jornalismo e outros, com o intuito de amparar o ânimo existencial.
Mesmo cultivando seus longos cabelos pretos foi aos poucos emergindo de seu status contracultural, deixando o rosto melhor visível ao olhar mais para o horizonte. Foi quando começou a discutir a anatomia humana nos desenhos. Fazia críticas sociais a partir de cenas cujos personagens brincavam com as emoções. Traços rígidos e bem marcados, muitas vezes rabiscados repetidamente enquanto corrigiam, alteravam e construíam a performance do fato a desejado.
Seu relacionamento com os demais atores do mundo artístico sempre teve um viés conflituoso, face a uma clara impaciência para negociar que se misturava com intransigência. Por outro lado, gostava de estabelecer relacionamentos com muita cumplicidade. Sonhador dedicado, sentia toda a incompreensão sociocultural que pesava sobre os que não fazem o jogo do mercado. Dava de ombros e se neutralizava com forte dose de blasé, como se fosse só isso, como se fosse simples, e reagia inconscientemente com um tanto de indisciplina. Era capaz de adiar um compromisso ante um convite para uma viagem ou mesmo uma noitada com amigos. A vida era vivida na hora mesmo porque era mais fácil e saborosa que a construção do porvir.
Em breve traremos mais informações sobre Túlio, principalmente sobre a sua obra, exposições e fotos. Por ora fica o registro da passagem do amigo Marcos Túlio Cordeiro dos Santos, meio século de uma consistente amizade com toda a cumplicidade preceituada por sua persona.
Tribuna da Imprensa sai de circulação
O jornal Tribuna da Imprensa, fundado em 1949 por Carlos Lacerda, lançou sua última edição nesta segunda (1º). Segundo Hélio Fernandes - que assumiu o jornal em 1962 - a circulação será suspensa por alguns meses. O periódico passa por dificuldades financeiras e aguarda indenização da União pelas perseguições sofridas durante a Ditadura Militar.
A Tribuna da Imprensa foi fundada em 27 de dezembro de 1949 por Carlos Lacerda. O nome vem da sua coluna no Correio da Manhã: "Da Tribuna da Imprensa". Foi neste jornal que em 1954, Lacerda sugeriu a renúncia do Presidente Getúlio Vargas, seu inimigo político. Ainda no mesmo ano, Getúlio faleceu e governistas invadiram e empastelaram a sede do jornal.
Em 1961, Lacerda vendeu o jornal para Manuel Francisco do Nascimento Brito, genro da Condessa Pereira, então dona do Jornal do Brasil. Mais tarde era a vez de Hélio Fernandes assumir o ativo e passivo do jornal, de onde nunca mais saiu.
Durante a Ditadura Militar o jornal esteve sob forte censura prévia. Em 26 de março de 1981, em um dos últimos atos dos militares, foi detonada na sede do jornal uma bomba que destruiu suas máquinas.
Um processo de indenização do jornal por causa das perseguições dos militares segue na justiça. Apesar de ganhar em primeira instância, a ação está hoje aguardando julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Veja abaixo a íntegra do último artigo de Hélio Fernandes no jornal desta segunda.
A TRIBUNA interrompe momentamente a circulação
POR CULPA DA JUSTIÇA MOROSA,
TENDENCIOSA, DESCUIDADA, DISPLICENTE,
VERDADEIRAMENTE INJUSTA E AUSENTE,
TÃO DITATORIAL QUANTO A DITADURA
O douto procurador-geral da República, Claudio Fonteles, recusou o AGRAVO da União, identificando-o como PROTELATÓRIO.
O imodesto ministro Joaquim Barbosa recebeu o AGRAVO da União, sabendo que era PROTELATÓRIO. Levou 2 anos e meio para entender.
Com a mente revoltada e o coração sangrando, escrevo serenamente, mas com a certeza de que é um libelo que atinge, vai atingir e quero mesmo que atinja o sistema Judiciário. As palavras que coloquei como título desta comunicação representam a ignomínia judicial, que se considera poderosa e inatingível, mas é apenas covarde e insensível.
Retira-se dessa acusação global apenas a primeira instância. O juiz que em 1979 recebeu a ação desta Tribuna da Imprensa examinou imediatamente a questão e dividiu a ação em duas. Uma chamada de LÍQUIDA, que decidiu imediatamente e que, lógico, foi objeto de recursos indevidos, malévolos e protelatórios, que é a que está na mesa do ministro Joaquim Barbosa.
A outra, denominada de ILÍQUIDA, juntava e junta prejuízos ainda maiores, como desvalorização do título do jornal, lucros cessantes, páginas em branco durante 10 anos, perseguição aos anunciantes, que intimidados pessoalmente pelo então diretor da Receita deixavam de anunciar.
(Esse diretor da Receita Federal, Orlando Travancas, era feroz na perseguição e na intimidação. Não demorou muito, foi flagrado em crime de extorsão e corrupção, não quiseram prendê-lo, seria desmoralização para o regime. Foi aposentado luxuosamente, com proventos financeiros "generosos").
A ação ILÍQUIDA dependia de PERÍCIA, que vem desde 1982, e não foi feita por irresponsabilidade e falta de interesse de dois lados. Acreditamos que agora andará em velocidade para recuperar o tempo perdido. Na ação dita LÍQUIDA, o competente juiz de primeira instância, cumprindo o seu dever, sem temor ou dificuldade, condenava a União ao pagamento da INDENIZAÇÃO devida a esta Tribuna.
Que sabendo dos obstáculos que enfrentaria, dos sacrifícios a que seria submetida, assumiu sem qualquer restrição a resistência ao autoritarismo e à permanente e intransigente defesa do interesse nacional, tão sacrificado. "Combatíamos o bom combate", como disse o Apóstolo Paulo.
De 1982 (primeira e única sentença) até este ano de 2008 (26 anos), a decisão do competente juiz de primeira instância foi naufragando na impunidade, no descuido, na imprudência dos chamados MAGISTRADOS SUPERIORES.
Nesses 26 anos, desembargadores que não tinham nenhum adjetivo, mas lutavam arduamente para ganhar a complementação de DESEMBARGADORES FEDERAIS, nem ligavam para a justiça ou a injustiça. Importantes, se consideravam insubstituíveis e incomparáveis, não queriam que alguém pensasse ou admitisse que eram inferiores. Lógico, cuidando da ambição pessoal, não podiam perder tempo FAZENDO JUSTIÇA. Que era o que o juiz de primeira instância compreendeu e decidiu imediatamente.
Em 26 de março de 1981, a ditadura agonizante mas vingativa explodiu prédios, máquinas e demais dependências desta Tribuna. Podíamos acrescentar isso na própria ação ou começar nova, com mais esse prejuízo colossal. Não quisemos. É fato também facilmente comprovável, não protestamos nem reivindicamos judicialmente em relação a mais esse terrorismo. Financeiro, econômico, irreparável.
Outro fato que também é acusação contra DESEMBARGADORES FEDERAIS facilmente comprovável verificando o andamento, quer dizer, a paralisação do processo: vários DESEMBARGADORES FEDERAIS ficaram 2, 3 e até 4 anos com o processo engavetado. Alguns devolviam o processo pela razão maior de todas: caíam na EXPULSÓRIA. Mas continuavam fazendo parte do esquema e sistema de atrasar a eficácia da prestação jurisdicional. Necessária nova distribuição, isso era feito lentamente, esqueciam inteiramente da importância de fazer justiça.
E o próprio Supremo Tribunal Federal não pode ser considerado INOCENTE ou DESCONHECEDOR do processo. Pois há quase 3 anos ele está na mesa do ministro Joaquim Barbosa, "esperavam um negro subserviente, encontraram um magistrado que veio para fazer justiça". Na prática está desmentindo a teoria. Negro ou branco, não importa a cor e sim a I-N-S-E-N-S-I-B-I-L-I-D-A-D-E como magistrado.
O ministro Joaquim Barbosa, do STF, com extrema boa vontade, recebeu o recurso inócuo da União, verdadeira litigância de má-fé, que sabia ser apenas PROTELATÓRIO. Os autos estão descansando em seu gabinete desde abril de 2006. Postura diferente adotou o douto procurador-geral da República, Cláudio Lemos Fonteles, que há mais de 2 anos já fulminara o teratológico recurso como INADMISSÍVEL, sem razão de ser, vez que almeja REDISCUTIR o que já tinha sido pacificado nas instâncias inferiores, ou seja, o direito líquido e certo desta Tribuna da Imprensa ser indenizada por conta de danos morais e prejuízos materiais de vulto que sofrera, em decorrência de atos truculentos e de censura permanente dos governantes dos anos de chumbo e que quase levaram o jornal à falência.
Inexplicavelmente, repita-se, o bravo (ou bravateiro?) Joaquim Barbosa aceitou o afrontoso apelo da União que nem deveria ser conhecido, por conta quem sabe de um cochilo, displicência ou então não tem a sabedoria jurídica que tanto apregoa.
Não quero ir mais longe, lembrar apenas o seguinte: a Tribuna da Imprensa não será FECHADA pela indolência da Justiça, que, sem perceber, a castiga tanto ou mais do que a ditadura, na medida em que por inaceitável MOROSIDADE está retardando a implementação da execução de sentença condenatória da ré, União Federal, e sua maior devedora.
ASSIM, suspenderemos por alguns meses a circulação deste jornal, que entra, coincidentemente, no ano 60 da sua existência. 14 com Carlos Lacerda, 46 com este repórter. Não transigimos, não conversamos, não negociamos a opinião aberta e franca pela recompensa escondida mas relevante. Poderíamos ter cedido, concedido, concordado, conquistaríamos a riqueza falsa e inconsciente, mas GLORIOSA E DURADOURA.
Vivemos num mundo dominado pela VISIBILIDADE e a RECIPROCIDADE. Como não nos entregamos nunca, como ninguém neste jornal distribui visibilidade para receber reciprocidade, estamos em situação dificílima.
Nesse quadro, já dissemos e reiteramos que essa primeira indenização será toda destinada ao pagamento de DÍVIDAS obrigatórias contraídas por causa da perseguição incessante comprovadamente sofrida.
Em matéria de tempo, uma parte do Judiciário foi mais ditatorial do que a ditadura. Esta perseguiu o jornal das mais variadas formas, por 20 anos. A Justiça quer ver se chega aos 30 anos, por conta de sua repugnante MOROSIDADE, TÃO RUINOSA e imoral quanto a ilimitada violência perpetrada pela ditadura.
Se vivo fosse, o jurista Ruy Barbosa por certo processaria os lenientes julgadores do processo indenizatório ajuizado pela Tribuna contra a União há quase 30 anos e sem pagamento algum até hoje, porque para Ruy, que é tão festejado e citado, mas não imitado, JUSTIÇA ATRASADA NÃO É JUSTIÇA, SENÃO INJUSTIÇA QUALIFICADA E MANIFESTA. Até breve. Muito breve.
PS - "A única coisa que devemos temer é o próprio medo. O medo inominável, injustificável, sem razão de ser. Medo que paralisa os esforços e transforma um avanço vitorioso numa derrota ou numa retirada desastrosa". Franklin Delano Roosevelt, 4 de março de 1933. Um dia antes de tomar posse pela primeira vez como presidente e já pronto para lançar o New Deal.
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BM, a vitória da Justiça
O povo de Barra Mansa pode comemorar a vitória da Democracia e, em seu bojo, do primado da Justiça, que acaba de dar provas de que não acatará a vontade de uma minoria, em detrimento da soberania popular. Não poderia ser diferente. A Justiça parece ter agido por impulso ao iniciar acatando a pretensão de anular a eleição, com base em argumentos subjetivos e pendurados em pensamentos fugidios, que desenhavam um crime, caracterizado a partir da interpretação particular da cena política do município e não pelo claro e intencional confronto da Lei.
Há crimes eleitorais engendrados às escuras e que precisam ser denunciados, trazidos à luz da tribuna pública, apreciados e decididos. Alguns deles chegam mesmo a interferir na realidade, usurpando a vontade popular. É para isso, para interferir nos desvios da sagrada vontade popular, que apelamos à restituição do direito. O caso apontado como crime no processo montado após a eleição
O adeus à Eila
Faleceu no último dia 20/11/08, aos 92 anos, a Tapeceira Eila Ampula. O velório teve lugar em seu atelier e o sepultamento às 14h30min, do mesmo dia,
Além de seu inequívoco destaque no meio artístico no Brasil e em todo o mundo, Eila foi personagem de grande notoriedade, relacionava-se com os políticos da alta corte e nos altos círculos sociais dos grandes centros. Via de regra, sentava-se ao lado de Presidentes da República, Embaixadores e Ministros, em eventos regionais, nacionais e internacionais. A mansão que construiu na Villa Eila, foi adquirida por um diretor da Nókia, que fez dela sua residência no Brasil.
Desde meados do século passado, ao se aproximar do acesso a Penedo o visitante lia um painel que destacava a presença da importante artista naquela balneário, tornando-se um dos nomes que caracterizam o lugar. Uma vida dedicada à tapeçaria que soube alinhavar com a mesma nobreza o fazer artístico à visão holística edificante, a arte de viver e fazer amigos, posicionando a tapeçaria em lugar de destaque e influenciando com o seu exemplo e prestígio toda uma geração de artistas.
JOSEPH STIGLITZ
A crise de Wall Street equivale à queda do Muro de Berlim
"Para o prêmio Nobel de Economia de
Com este texto Nathan Gardels inicia o seu artigo no El País. Esperava há cerca de 30 anos por uma voz autorizada e corajosa para desmascarar esse mito. Por que apenas para os "players" do mercado há liberdade total, inclusive sobre os destinos das sociedades? O desmonte da mística acena com um futuro mais equânime. Finalmente o capitalismo apea do cavalo da "verdade e da arrogância", o que o comunismo, pela sua própria motivação já o fez lá atrás, com a queda do muro, mantendo uma razoável dianteira... como é de sua própria motivação, e segue se aperfeiçoando. É especialmente bom viver este momento.
Constrangimento
O jornal O Globo estampou em manchete no domingo, 24, último dia das Olimpíadas, que cada medalha conquistada pelos atletas brasileiros teria custado mais de R$50 milhões de reais e ainda acenou com a idéia de um deputado de pedir uma CPI. Na manhã seguinte, no primeiro noticiário do dia na TV Globo, uma matéria dá conta de que a Orquestra Filarmônica do Rio está em vias de desaparecer, pois o Maestro e seus Músicos não têm mais recursos para mantê-la funcionando.
Para dar continuidade a tal festival de calamidades, e seguindo o rito já de todos conhecido, creio que se algum deputado, despido de pejo, tiver a coragem de pedir uma CPI para apurar o uso indevido do dinheiro dos esportes, depois meses e meses e milhões e milhões gastos - aí, sim, gastos! - para produzir aqueles "doutos e eloqüentes" argumentos, nas várias instâncias da nossa justiça, Diogo Hipólito deverá ser apontado o grande culpado.
Parodiando São João Chrisóstomo, vergonha das vergonhas e tudo vergonha! Até quando os nossos políticos vão continuar ignorando seus papéis, a importância de um país como o Brasil e o desenvolvimento do seu povo? Certamente enquanto o esporte for despesa, a imprensa for uma caixa de ressonância desafinada, as autoridades se confundirem com os bandidos e a educação e a cultura ainda tiverem preço. E nós, até lá, constrangidos e envergonhados, devemos permanecer de cabeças baixas?
Ainda está no ar a notícia sobre o ataque de fúria ocorrida no Japão, quando um jovem de 26 anos saiu para a rua, segundo suas palavras, "para matar gente. Estou cansado do mundo". Matou sete pessoas e feriu outras 12 com uma faca, antes de ser dominado. Ainda no Japão, o funcionário de num escritório, de repente começa a gritar e a lançar os computadores para todos os lados, até ser dominado. São dois exemplos que se transformaram em notícias porque essas pessoas manifestaram suas dores de forma violenta, em público e contra outros. Quantos, porém, sofrem em silêncio e tornam-se vítimas de suas próprias dores?
A violência está no ar. Cada um de nós terá uma enorme lista de brutalidades publicadas recentemente pela imprensa. Aliás, é a imprensa que vem desenhando esse cenário e nos familiarizando com ele.
Segundo a OMS-Organização Mundial de Saúde, cerca de 3 mil pessoas por dia se matam em todo o mundo. Isso significa uma pessoa a cada 3 segundos, conforme dados do relatório de setembro de 2007. Isto é, enquanto você lê este texto, várias suicídios estão ocorrendo em todo mundo. Segundo o relatório, a média de suicídios aumentou 60% nos últimos 50 anos. Atualmente é uma das principais causas de morte entre os jovens e adultos de 15 a 34 anos, embora a maioria dos casos ocorra entre as pessoas com mais de 60 anos.
Mais do que lamentar - A que ponto chegamos!, precisamos ter em mente que, de alguma forma, fazemos parte disso e se realmente não é o que queremos, é natural que a nossa compaixão nos ajude a mudar de postura, em busca da construção de uma sociedade melhor. O que está faltando? O que está sobrando? O que está fora do lugar? O que queremos?
Algumas iniciativas vêm dando certo, como o CVV. Os Voluntários do CVV trabalham no sentido de amenizar a dor, a solidão, a ansiedade, a angústia, o desespero das pessoas e, dessa forma, valorizar a sua vida, com o objetivo de prevenir o suicídio. Mas não há CVV suficiente para tanta dor, afinal são apenas cerca de 50 Postos em todo o Brasil e um grupo de 2.400 Voluntários que se revezam em plantões semanais de 4 horas e meia para o atendimento 24 horas nessas 50 localidades. Mesmo assim, o telefone 141 do CVV é hoje um dos serviços mais procurados do país, com uma média superior a um milhão de ligações por ano.
Esse é um cenário onde duas energias estão em luta. Consciente disso ou não, a postura de cada um de nós diante da vida está ajudando um dos lados. É urgente que cada um assuma o seu papel e o exerça com a intensidade de sua compaixão. Mas é urgente. Pois se não cuidarmos da vida e suas circunstâncias, o acaso cuidará.
Quando aposenta, a última coisa que o trabalhador lembra é providenciar o seu desligamento do Sindicato. Na verdade nem precisaria pedir, pois os sindicatos não podem descontar mensalidades de aposentados. Porém, o Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda, por exemplo, continua descontando em silêncio e faz questão que o aposentado nem se lembre daquele pequeno desconto – hoje R$7,00 por mês. Como o valor é pequeno, o aposentado também vai deixando para depois.
Assim os anos vão passando e o sindicato vai fazendo um caixa extra com o dinheiro dos aposentados. Cada mil distraídos deixam no sindicato R$7 mil reais por mês. Como o desconto incide também sobre o 13º salário, soma a bagatela de cerca de R$91 mil reais por ano. Não é nada, não é nada, paga o salário do advogado, que aliás, mantém em mãos toda uma papelada para brigar até o fim, evitando o desligamento do aposentado.
Os anos vão passando e, num dia de reflexão, ou quando o benefício começa a encolher, o aposentado percebe que paga aqueles R$7,00 em troca de nada. Então, dá uma passada no sindicato e diz que quer se desligar. A atendente da secretaria anota e diz que será providenciado. O tempo passa e, meses depois, o aposentado vê que o desconto continua. Programa a sua volta ao sindicato, já aborrecido, resmunga e sai com a promessa de que o pedido será encaminhado.
Essa estratégia é uma covardia inominável. O aposentado se irrita e, tempos depois, faz o pedido por escrito, pede recibo e ameaça o sindicato. Acredite, vai ficar aguardando muito tempo, pois o sindicato sabe que um aposentado vai pensar 10 vezes antes de solicitar o seu desligamento na justiça, mesmo porque isso seria um caso extremo. O sindicato continua descontando e só vai fazer o desligamento na justiça. Então, só depois de anos de tentativas, negativas e embromação, o aposentado se encoleriza de vez e decide pedir o desligamento na justiça. Por se tratar de um direito líquido e certo, presume-se que não há demora na decisão. Agora o aposentado aguarda mais tranqüilo.
Só o aposentado não sabe. O sindicato sabe que a justiça tarda, conseqüentemente falha, propiciando ao sindicato continuar tirando mais dinheiro do aposentado. Depois das escaramuças legais, promovidas pelos advogados do sindicato, cada uma custando meses de espera, enfim acontece uma audiência e o sindicato é condenado a lhe devolver os últimos 5 (cinco) anos de contribuição e, acredite, insiste em fazê-lo
Quer saber mais? Mesmo com o processo em andamento o sindicato continua descontando a mensalidade, que só será cancelada a partir do mês seguinte ao da audiência, uma confissão pública do dolo. Se fizer as contas, o aposentado vai concluir que investiu alto e teve que ir às últimas conseqüências, para resguardar o seu direito de decidir sobre o seu dinheiro. Quanto ao sindicato, perdeu um, isso não é nada, vai continuar sugando o magro dinheiro de muitos aposentados e contando com a condescendência da justiça.
Os detentores do poder utilizam a mídia como o principal instrumento, para impor suas verdades e manter seus privilégios em detrimento da sociedade. É urgente que todos aprendam a ler a nova notícia.
O que ocorre é que estamos construindo um processo cultural que transfere o antigo medo dos mais fortes, medo dos delinqüentes, das máfias, da polícia, para um novo medo, o medo de quem controla a informação. Ocorre que esse medo não é semelhante ao medo das gangues de rua, mas um temor à submissão àquele ente que deveria significar respeito e contra o qual ninguém ousa levantar qualquer dúvida, como se fosse uma informação nascida na fonte das verdades.
Essa imposição ocorre através de um processo semelhante aos utilizados pelos bandidos para criar uma cultura de submissão. Assim, quando um agregado do tráfico de drogas falhar na sua missão, principalmente se falhar de forma traiçoeira, com certeza será assassinado. O valor do erro não se equipara ao assassinato, mas dar o exemplo é tudo naquela relação, pois não há regulamento público, nem tolerância, portanto, exemplar é tudo na atividade sem lei. Assim também funciona o processo de imposição da verdade midiática sobre a sociedade. Não pode haver negociação sem jogo aberto, onde nada é plausível.
Se alguém fica “mal na foto” através da mídia, com certeza seria um culpado até que conseguisse provar o contrário; só conseguirá provar o contrário se se submeter aos ditames do orquestrador de plantão no veículo – ou veículos – diante do fato tratado. Isso porque, nesse caso, o palanque capaz de fazer justiça igualmente não é isento, é o próprio veículo de comunicação, portanto tem dono, portanto o injustiçado não terá como se defender. É dessa forma que conhecemos muitos homens públicos que “caem em desgraça” e têm suas carreiras liquidadas definitivamente. Passam a ser olhados, falados, citados, e sempre renderá boatos que aumentam e deturpam os fatos, sempre no sentido de prejudicar, destruir, como se existisse um objetivo oculto, inconfessável e subjacente aos propósitos humanos de eliminar o próximo. Alguns exemplos? Ibsen Pinheiro, Leonel Brizola, Fernando Collor, Abi Hackel e muitos outros. O atual Presidente Lula ainda está de pé nessa luta, amparado pelas seguintes condições: o voto popular, os resultados do seu governo que a imprensa não tem conseguido mudar muito apesar do formidável esforço, e as sucessivas pesquisas mostrando a sua ampla aceitação. Porém, precisamos ter em mente que esse comportamento da mídia não é um pecado isolado, é fruto de um conteúdo perverso do animal homem, com vigência entre nós, mesmo nesse novo e brilhante século.
O que está no foco da nossa apreciação é a hegemonia da mídia sobre a verdade, sobre o fato, sobre a palavra pública ou privada, sobre documentos e testemunhas. O processo cultural de submissão à mídia enreda através de formatos, tons, palavras, iluminação, posição, horário, similaridade e diversos outros atributos, o cenário imaginário onde a fala veste o fato com a roupagem de verdade e despacha como um feito. É com as técnicas de comunicação que constroem a primazia pelo que querem impor como verdade e o desprezo para o que querem eliminar.
Parece que já foi pior. Havia uma fala dando conta de que uma notícia era verdade a partir do momento em que era noticiada pela TV, principalmente pela Rede Globo – “Se não deu na Globo, é boato”, dizia a frase popular.
Também essa frase que buscava encerrar uma crença na maior empresa de comunicação do Brasil, foi construída pela prática da mídia. Para isso os meios de comunicação impõem um padrão, reconhecido pelas características acima citadas. Por um lado busca a cumplicidade da audiência através da prestação de serviços, por outro, utiliza uma suposta credibilidade, apontando erros nas pessoas, no trânsito, no serviço público, nos procedimentos de cidadania, denuncia falcatruas e corrupção.
Com esse comportamento a mídia busca ocupar a posição de corregedora social, de fórum pertinente para medir o certo e o errado, busca ocupar o papel da autoridade e usufruir das atribuições da justiça, condenando ou defendendo, a partir do tratamento dado a matéria. Com esse comportamento tendencioso, a mídia acaba por influenciar os fatos, orientar o andamento e condicionar as decisões.
É dessa forma que busca ainda deter o monopólio sobre o fato e não pela divulgação do fato. Ao apontar erros das pessoas e instituições públicas e privadas, submete a sociedade a uma espécie de grande fiscal e protetor paternal indispensável, criando uma dependência da mídia, uma vez que as instituições “não funcionam” e as “pessoas não são confiáveis”. Aprendendo a ler as entrelinhas, podemos nos perguntar: - Que pessoas então são confiáveis?
Para impor a sua fala como verdade, ambienta a matéria de forma a oferecer similaridade aos códigos e referenciais da memória da emoção do leitor, ouvinte e telespectador, uma vez que este tem justamente aqueles atributos como referencia para medir o índice de veracidade de uma notícia. Para isso decidem previamente a forma como a notícia deve aparecer, a classificação de importância por horário ou veículo, o tratamento do texto e sua hierarquia no noticiário, porque “o meio é a mensagem”, como nos ensinou McLuhan. Aliás, alguns teóricos contemporâneos já discordam, mas o axioma ainda é uma verdade junto à massa.
É urgente que todos aprendam a ler a nova notícia e sua entrelinha, caso contrário os debates essenciais para a sociedade terão apenas um lado, já que os demais continuarão sistematicamente desclassificados.
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