Lengalenga na TV

         Em entrevista na TV Rio Sul no último dia 25/08/15, o atual Secretário de Meio Ambiente do Estado do Rio, André Correa, repetiu pobremente a lengalenga da crise hídrica, tentou dar ênfase aos investimentos no setor e aproveitou os bons exemplos isolados de captação de água de chuva e reuso, na tentativa de pedir que todos se conscientizem da importância da água e seu uso racional.

         Pois é, Sr. Secretário, o processo de conscientização sobre os nossos verdadeiros valores não se dá de forma tão simplista como V. Sª. fez parecer. Aliás, suas palavras amórficas hoje revelam com toda clareza o seu real papel de homem público que vem convencendo os eleitores, sabe-se lá com que argumentos. Podemos afirmar que não é por empunhar qualquer bandeira de interesse público, muito menos a bandeira da causa ambiental.

         Como jovem de perfil idealista dos anos 80, em defesa do meio ambiente, vimos nascer uma esperança que naquela época já se manifestava tardia. Logo o Brasil sediaria aquela que foi considerada a maior reunião dos povos da era moderna, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, que ficou conhecida como Rio 92. O alerta planetário ganhou fôlego e os 196 países ali reunidos saíram com seus deveres de casa debaixo do braço. O principal deles, implementar a Agenda 21, uma agenda para que pudéssemos preservar a vida neste século.

         No rol dos temas a serem considerados na Agenda 21 estão: Combate à pobreza, cooperação entre as nações para o desenvolvimento sustentável, sustentabilidade e crescimento demográfico, proteção da atmosfera, planejamento e ordenação no uso dos recursos da terra, combate ao desmatamento das matas e florestas no mundo, combate à desertificação e seca, preservação dos ecossistemas do planeta, desenvolvimento rural com sustentabilidade, preservação dos recursos hídricos, conservação da biodiversidade no planeta, tratamento e destinação responsável dos diversos tipos de resíduos, educação como forma de conscientização para as questões de proteção ao meio ambiente e outros de igual relevância. 

         Com tal agenda e urgência, enxergamos a questão ambiental como a maior prioridade de todos os povos, capaz de alterar os planos e projetos em todos os níveis de governo, para que se promovesse, em caráter emergencial, essa nova cultura, capaz de valorizar a vida, seu meio e suas circunstâncias, como a maior prioridade de nossa civilização.

         De nossa parte, aqui em Volta Redonda, arregaçamos as mangas e implementamos a Agenda 21 que foi bem sucedida até quando os interesses públicos mais amplos começaram a incomodar os interesses privados e a concentração de poderes. Juntando os já parcos recursos para manter viva a chama essencial do meio ambiente, organizamos o PV – Partido Verde e passamos a promover ações localizadas de uma campanha capaz de levar os temas ambientais para reflexão junto às escolas e organizações diversas.

         A força do pensamento Verde ainda era pequena mesmo com toda a promoção levada a efeito pela Rio 92, mas para quem milita, acredita e tem a consciência da emergência da causa ambiental, os problemas e as dúvidas são superados pela pulsação de um ânimo revolucionário que não enxerga limites.

         O nosso PV em Volta Redonda era ainda uma Comissão Municipal quando recebemos a visita do nosso então Deputado Estadual André Correa, que deveria continuar sendo motivo de orgulho desde quando o elegemos como parte de nossa luta e alimento de nossa esperança. Mas ele propôs a dissolução de nosso partido ainda no berço, por orientação da Executiva Estadual, da qual fazia parte. Brigamos em reuniões contínuas, ele aparentemente aceitou apenas para evitar a continuidade do conflito, mas foi para o Rio e, de lá, “negociou” o PV com políticos que queriam mais poderes e, principalmente, uma sigla limpa para se locupletarem. O Governador do Estado era Garotinho, o Prefeito de VR já era o Neto, de lá foram distribuídas as “fatias” do PV para diversos “amigos” políticos que fizeram do partido o uso de seus interesses e deixaram para a história a importância e a urgência da conscientização sobre as demandas ambientais e suas consequências. Depois soubemos de outros verdes da região que o mesmo foi feito em diversos municípios, ou seja, o desmantelamento do PV para servir aos interesses dos diversos grupos políticos que deram sustentação ao Governador.

 

         Há muitos anos fora do PV, do qual já se serviu e o descartou, o mesmo André Correa aparece agora, com uma fala morna sobre a importância e urgência da crise hídrica e demais questões ambientais. Ora, nós que acompanhamos o processo político há décadas, acabamos de ganhar um novo impulso e maior abrangência em nossa consciência: – Que governo estadual é esse que acolhe um sujeito que sempre utilizou a política para interesses que não os públicos? Infelizmente a resposta é óbvia: os semelhantes se agrupam. Por isso temos muito o quê fazer e vemos ampliada a nossa pauta de compromissos, sobretudo a partir deste ano, com o PV reorganizado nos municípios do sul fluminense, e determinado a cumprir os seus princípios.  Pelo que se consegue constar no cenário político contemporâneo, há muito o que fazer. Os que acreditam que “Um outro mundo é possível”, podem contar com a gente porque nós contamos somente com vocês. 

  Adeus, Anamir

         Quando conhecemos Anamir no início dos anos 80, ganhamos uma amiga. O tempo passou, ela foi viver longe para enriquecer o seu espírito e enriqueceu também a nossa saudade. Ao tempo e a distância, que podem afastar as pessoas, Anamir acrescentou a liga de humanidade, ingrediente de amor e sinceridade, o fermento que fez crescer o calor da amizade e o bolo do sentido da vida.

 

         É assim que Anamir conquistou todos nós. Quando nos visitava em Volta Redonda, todo o tempo era pouco para conversar com os tantos amigos e nós reclamávamos com ela:  “Não conseguimos conversar porque todo mundo quer você!”   Como sempre ela ria, ajeitava o tempo, os encontros, os abraços, as palavras, aquecendo e enriquecendo as amizades com generosas doses de humanidade.

 

         O sorriso otimista, o gesto de carinho com todos, por entender as dificuldades de cada um em sua missão, a palavra de afeto e o acolhimento benfazejo, descortinava uma luz a mostrar sempre novos caminhos e outras soluções.

 

 

         O tempo passa e nem sempre temos a consciência do privilégio de tão cara amizade. Só queremos desfrutar. Agora, com mais um gesto de orientação, vem Anamir a nos dizer com todas as letras que cada um tem o seu caminho, mas todos exigem força e determinação, assim como carinho e compaixão.  Estamos aprendendo, amiga, não vamos mais reclamar. Sabemos que todo mundo quer você, todo mundo mesmo, mas compreendemos que Deus tem a preferência e que seja feita a sua vontade. Esteremos sempre juntos.   

 

50 anos depois o mesmo filme.                                                                                                                                           Mas podemos mudar o final.

      

As revelações, confissões, testemunhos, pesquisas e fatos históricos que voltam à pauta hoje, 50 anos depois, confirmam o golpe com G maiúsculo e as certezas dos que vivenciaram o processo, isto é, a popularidade do Governo João Goulart, em função do atendimento às demandas de abrangentes camadas sociais, da iminência da reforma agrária e outras reformas saneadoras da viciosa dependência econômica brasileira e do corrompido processo político.

Os testemunhos são inúmeros de todos os lados, desde os torturados e torturadores, até os historiadores e pesquisadores. Cada um com a sua dor e sua razão, o que poderia muito bem ser parte da matéria prima para reconstruirmos a Nação madura e soberana. Infelizmente, enquanto o General Newton Cruz, ex-Chefe do SNI, reconhece os erros da ditadura e reclama do excesso de culpa que lhe coube, há declarações impertinentes à discussão construtiva, como as do General Leônidas Pires Gonçalves, ex-Ministro do Exército, que beirariam a ingenuidade se não fossem mórbidas, patológicas, à luz do discernimento histórico e da consciência Republicana, ao dizer que o Exército não fez intervenção, apenas manteve a ordem. Como se vê a reconstrução da democracia não será feita sem obstáculos.

Como sabemos desde os primórdios históricos o processo político é mantido por interesses econômicos, cujos representantes se especializaram nesse ofício e o aperfeiçoaram através do tempo. Criaram leis, procedimentos, normas, hábitos, crenças e até místicas que se integraram ao processo cultural e, muita coisa ainda é considerada intocável, como se a política fosse matéria proibida. Participação do povo ainda gera um sentimento de desordem.

A experiência da prática política popular no Brasil, na época do Governo Goulart, começava a ganhar corpo e importância. Um caro e necessário aprendizado de conscientização política e cidadania. Com a participação da sociedade organizada, como os Círculos de Trabalhadores Urbanos e Rurais, Sindicatos, Centrais Sindicais, Associações, Grêmios Militares e Estudantis entre outros, houve o fortalecimento do poder eleito pelo povo, mas tal processo não teve tempo de ser amadurecido. Ainda nas suas experimentações, com os erros pertinentes a um ambiente novo de aprendizagem, foi ceifado pelo Golpe Militar, o que muito nos diz de sua efetividade.

Com a marca do trabalhismo e o apoio popular, Jango propôs as medidas saneadoras chamadas reformas de base. Conforme definido no texto de Marieta de Moraes Ferreira, CPDOC/FGV, “sob essa ampla denominação de "reformas de base" estava reunido um conjunto de iniciativas: as reformas bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Sustentava-se ainda a necessidade de estender o direito de voto aos analfabetos e às patentes subalternas das forças armadas, como marinheiros e os sargentos, e defendia-se medidas nacionalistas prevendo uma intervenção mais ampla do Estado na vida econômica e um maior controle dos investimentos estrangeiros no país, mediante a regulamentação das remessas de lucros para o exterior.

Tais medidas exigiam emendas constitucionais que não foram aprovadas pelo Congresso. Sabemos que até hoje lá estão legisladores cooptados por grupos de interesses que formam “bancadas” comprometidas em defender outros interesses, contrários aos interesses do povo, do bem estar social e do futuro do país. Impedido de dar andamento ao programa de reformas, Jango busca ampliar o apoio popular à pauta saneadora e marca encontros com o povo para falar das necessidades das reformas e das mudanças na Constituição.

O primeiro grande encontro foi o Comício das Reformas, realizado no dia 13 de março de 1964, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Sua determinação de levar adiante as reformas provocou um acirramento de posições apoiadoras, como o levante dos marinheiros, no dia 25 de março. Diante de tal quadro, foi ampliada a reação dos conservadores, dos latifundiários, de setores militares e da imprensa, que já vinha divulgando a necessidade de ser restabelecida a ordem institucional, com a intervenção militar. Daí para o golpe foi um passo, pois todos os setores ligados ao capital, inclusive a classe média, aderiram aos militares.    

Com o poder do dinheiro o capital enganou o povo e substituiu a proposta de democracia abrangente e mais consistente por sua pauta de internacionalização do capital através do controle mundial da produção, a transnacionalização dos processos, que foi aperfeiçoado pelo neoliberalismo e pela globalização. É assim que subordinaram os interesses dos povos em todo o mundo, condicionando as suas autonomias às regras do mercado internacional.        

Para enfrentar as resistências conservadoras, o Governo Jango necessitaria que a maioria já tivesse consciência para entender que a campanha feita pela imprensa, que incluía a ameaça comunista, entre outras, era a promoção de um clima de terror no sentido de criar o ambiente próprio para o golpe, como única forma de deter Jango. O povo que ainda estava em fase de aprendizado do processo participativo, acabou acreditando nas ameaças publicadas e aderindo ao clima de medo.

Sem o apoio popular nenhum governo vai conseguir fazer qualquer reforma. Todo brasileiro sabe que a reforma do sistema político hoje é a maior urgência. Mesmo assim nenhum legislador fala sobre o assunto e as organizações sociais igualmente não assumem a iniciativa. A única reforma que a sociedade civil tomou a iniciativa e está avançando nos debates, é a conhecida como Democratização da Comunicação. Como ninguém apóia a Reforma Agrária, o Governo atual vai fazendo os assentamentos. Um jeito de fazer Justiça sem provocar a ira dos latifundiários. Mas só com as reformas o país abrirá espaço para o futuro, com democracia real, onde haja ordem porque haverá direitos.

Apesar de sua característica pleonástica, a frase acima houve o fortalecimento do poder eleito pelo povo – está no centro do conflito de nossa cultura política. Quando esmiuçamos os acontecimentos e os seus porquês, vamos ver que sempre fomos induzidos a acreditar que basta votar e ir para casa esperar a vida melhorar. Nunca suspeitamos que os nossos representantes, sem a nossa presença e apoio, passam a contar com a presença e apoios dos representantes de outros interesses. Sem o povo amparando os seus representantes desde o Vereador até o Presidente da República, eles nunca poderão defender os interesses populares.    

As velhas instituições estão desgastadas e viciadas. Precisamos ter a consciência de que o poder que emana do povo, só tem vigência se esse povo se fizer representar com legitimidade em todos os atos. Utilizar organizações sociais pode ser uma saída. Assim, saberemos quem está lá produzindo sujeira e quem está limpando. Uma coisa já sabemos: é impossível limpar um chiqueiro sem entrar em contato com a sujeira.

Já vimos esse filme e, ao quer tudo indica, agora estamos mais preparados para decidir. Depois da longa ditadura e do processo de abertura, só agora, meio século depois, estamos novamente em condições de aprofundar a nossa democracia. – O que vamos fazer? Tornar a acreditar no clima de insegurança que a mesma imprensa está criando e adiar as reformas por mais 50 anos, ou desta vez vamos reconhecer a soberania do voto popular, a autonomia do país, ficar mais próximos ao Governo e fiscalizá-lo, para garantir que siga em frente?                                        

 

 

 

 

 

 

 

 

                                               A revolução possível

           

 

            O cientista político irlandês, radicado no México, John Holloway, autor de “Mudar o mundo sem tomar o poder”, comentando o seu novo livro lançado no Brasil sob o título “Fissurar o capitalismo”, fala de se coordenar as diversas ações dos que rejeitam o sistema e praticam a seu modo uma vida alternativa aproveitando-se de fissuras no sistema capitalista, tido pelos pensadores contemporâneos como processo insustentável e responsável pelos problemas do mundo.

            Immanuel Wallerstein, em seu artigo “O Complexo de Sansão”, constata que a crise do sistema-mundo capitalista produz divisão rara entre poderosos e gera enorme instabilidade, sendo necessário definir projetos alternativos. Por sua vez, Ladislau Dowbor, contextualizando a barbárie da tortura e sua banalização promovida pela subordinação ao sistema, a partir do filme de Margarethe Von Trotta, acena para os riscos em época de democracia esvaziada e futuro incerto. O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, analisando “Um novo retrato da desigualdade global”, é enfático ao afirmar: “Os Estados Unidos oferecem um exemplo particularmente sombrio para o mundo. E como, de diversas maneiras, eles “lideram o mundo”, se outros seguirem seu padrão não poderemos esperar por um futuro mais justo.

            Estamos, portanto, diante de um quadro realmente insustentável. O próprio sistema capitalista vem fazendo água e acirrando a luta pela sua manutenção, apesar das concessões que se viu obrigado a fazer na tentativa de se sustentar. Assim, apesar dos Governos democráticos como os do Brasil, Argentina, Venezuela e Bolívia, serem eleitos segundo as regras autorizadas pelo sistema capitalista, precisamos concordar que há um esforço de inclusão, distribuição de renda, ampliação dos direitos, da transparência e participação.

            No Brasil, por exemplo, o Governo instituiu canais de participação como os fóruns, consultas públicas e conferências para a reorganização de todos os setores importantes da vida pública nacional. Podemos imaginar que se a população estivesse mesmo pronta e interessada em mudanças, participaria em massa dessas decisões, ampliando as fissuras na estrutura do sistema, como propõe Holloway, reivindicando novas legislações e outras práticas nas relações institucionais, enquanto redesenhavam as relações com o Poder, aproveitando-se justamente da proposta de participação.

            Os governos são frágeis ante o poder do capital. Como prognosticou muito bem Maria da Conceição Tavares sobre as perspectivas de Barack Obama tão logo surgiu vitorioso no cenário dos EUA. Segundo ela, Obama teria pela frente a difícil tarefa de acenar com melhorias democráticas, uma vez que é refém de um colegiado, o Congresso Americano, extremamente conservador e atrasado, por ser representante do capital. Em suas palavras, Obama depende  “do melhor Congresso que o dinheiro pode comprar”. Vemos que as coisas realmente não estão fáceis para o presidente americano porque o Governo apenas representa o poder popular, este, sim, é absoluto quando se manifesta.

            Portanto, qualquer gesto oficial contra o capital, contra os interesses da banca, dos rentistas, resulta em ruína para o Governo e, consequentemente, para o país e para o povo. Aqui no Brasil as coisas mudaram um pouco. Antes, bastava o anúncio de falência de um banco americano para o país entrar em estado de alerta, ter a sua dívida aumentada e passar por restrições e o sacrifício era distribuído para todos nós. Hoje, vários bancos faliram por lá, a correria foi internacional, a banca sofreu os seus destemperos em função da ganância e, como disse Lula, por aqui foi apenas “uma marolinha”.

            O quadro é mesmo grave e os que pensam e enxergam o problema em sua real dimensão sabem das dificuldades de levar adiante a revolução em sua versão histórica. Os pensadores contemporâneos concordam com a necessidade de uma nova ordem, ainda inexistente, e não arriscam mais que isso. Do ponto de vista da rua, segundo as manifestações em todo o mundo, a reivindicação é a mesma. Portanto, fica a pergunta:

            - Por que, então, a sociedade está desperdiçando a áurea oportunidade de participar e produzir as mudanças possíveis?

            Da mesma forma consideramos que vem sendo perdida a chance de participação através da Agenda 21, compromisso firmado por 176 países na  Rio 92 – a I Conferência da ONU para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. A Agenda 21 tem a vantagem de ser uma determinação de um fórum internacional quando os países participantes assumiram o compromisso de repensar seus modelos desenvolvimentos de forma a conciliar a justiça social com proteção ambiental e eficiência econômica. Isto é, uma proposta de ampla participação da sociedade organizada com o objetivo de rever as relações entre todos os setores. Tal proposta está em vigência desde o início da década de 90 e até hoje a sociedade não assumiu o protagonismo que lhe cabe nesse processo de mudança.

            Já sabemos que sem luta não passaremos da condição a que somos submetidos até aqui, vendemos a nossa força de trabalho ao capital em busca de obter as condições necessárias a sobrevivência. E se algumas coisas são melhores hoje, graças aos militantes que guerrearam em confederações de trabalhadores, partidos, associações, sindicatos, e outras organizações. Sempre graças aos militantes, conforme disse Pepe Mujica, Presidente do Uruguai, o progresso da condição humana depende fundamentalmente dos que militam.

 

            – O que, então, estamos esperando, se o nosso futuro de sonhos agoniza prostrado a nossa frente pedindo socorro?  

 

                    As manchetes são claras

 


            O dia de hoje, 10 de setembro, é considerado em muitos países como o Dia Internacional de Prevenção do Suicídio. No Brasil, o CVV-Centro de Valorização da Vida e o Ministério da Saúde realizam atividades para chamar a atenção para esse flagelo com o qual convivemos e não vemos, em função do tabu construído em torno do assunto, com a complacência dos órgãos responsáveis, assumida cumplicidade da imprensa e o forte preconceito.

            Os dados são alarmantes. Segundo relatório da OMS há mais de um suicídio por minuto em todo o mundo. A Associação Internacional de Prevenção do Suicídio (IASP) definiu o tema “Preconceito: uma barreira à prevenção do suicídio”, como a bandeira deste ano a ser levantada no dia 10 de setembro. Para se ter uma idéia de como o assunto é rodeado de tabus e preconceitos, 25 brasileiros morrem diariamente vítimas de suicídio e, segundo pesquisa da Unicamp, 17% dos brasileiros pensaram seriamente em tirar a própria vida pelo menos uma vez. Por outro lado, mais de 90% dos casos de suicídio podem ser evitados. O primeiro passo para essa prevenção é, sem dúvida, falar a respeito.

            Entre as chamadas do noticiário do portal UOL de hoje estão algumas que ilustram a terrível dimensão desse desalento a que a sociedade está submetida:

           

 

Bolsões de crack tomam bairros nobres de São Paulo

 

Incomodado com a falta de atenção

 Idoso publica nota de falecimento falsa para receber visita de parentes

 

Nivaldo Lima/Futura PressSozinhas em casa  

                                                                                                                   Crianças mortas em incêndio em SP estavam sob cama, diz polícia

 

Vítima teria sido vendida pelo padrasto

                                                                                                              Menina de oito anos morre no Iêmen em lua de mel com marido de 40

  

           São situações que nos fazem perguntar: - Que mundo é esse que estamos fazendo? Devemos responder com a determinação de fazer a diferença no lugar onde estamos, junto ao nosso próximo. O CVV, entidade que há 51 anos disponibiliza apoio emocional gratuito às pessoas, lançou para esta data, um movimento que estimula as pessoas a refletirem sobre as suas emoções e motivações para a vida, intitulado “Isso me faz seguir em frente”. Originalmente online, o movimento tem como base a fanpage facebook.com/issomefazseguir, na qual os internautas compartilham as suas motivações para seguirem em frente, que podem ser pessoas, causas, sensações ou hábitos.

             O movimento faz parte das iniciativas do CVV pelo Dia Internacional de Prevenção do Suicídio - 10 de setembro. Além do “Isso me faz seguir em frente”, a entidade fará ações de divulgação e mobilização em diferentes locais do país. O intuito é, justamente, estimular a população a falar sobre o assunto, se colocar à disposição de quem busca ajuda e, quando for o caso, entender que é possível pedir socorro e mudar o rumo de sua vida. Pense nisso.Em todo o país, é só ligar 141. Se estiver ocupado, aguarde, há mais pessoas pensando como você e muitos motivos para seguir em frente.

 

 

Um motivo para democratizar

            A grande imprensa vive a criticar os programas sociais do Governo PT sobre vários aspectos, desde o “grande volume” de dinheiro empregado – cerca de 20 bilhões/ano até os riscos da promoção da ociosidade, passando pela má gestão e outros, pois se não há problemas, inventam. Constantemente estampam manchetes com comparações e números descontextualizados, para destruir a única solução encontrada até hoje para resolver a fome e a miséria neste país.

            O que a grande imprensa não mostra é a verdade: com apenas 20 bi/ano, sem precisar de ajuda externa, o Brasil assiste a cerca de 11 milhões de famílias, saneando a área mais sensível do nosso perfil social, tirando toda essa camada de brasileiros da extrema pobreza, enquanto promove a oportunidade de sonhar e realizar, impulsiona a economia, limpa a imagem do país, amplia a sua credibilidade e seus negócios internacionais, entre todas as demais vantagens morais e humanitárias.

            - Por que, então a grande imprensa não dá destaque para a maior despesa do orçamento brasileiro, que vai para o pagamento de juros dos títulos públicos que, em 2012 foi de 213,9 bilhões, 4,8% do PIB? – Por que não abre espaço para os debates que visem à democratização e a transparência?

            A revista Forbes de março de 2013, ao apresentar a lista dos 46 bilionários brasileiros, incluiu seis da nossa grande mídia: os três herdeiros da Globo, com fortunas pessoas próximas aos 17 bilhões de reais; Roberto Civita e família, 10 bilhões de reais; Silvio Santos e Edir Macedo com mais de 2 bilhões de reais.

            Na condição de ricos, eles detém os títulos do governo, por isso, juntamente com os demais bilionários, recebem do governo a “bolsa bilionários”, que vai para essas poucas famílias. Acontece que ninguém está satisfeito com o que ganha. Os pobres esperam com fome. Os ricos, como são detentores dos meios de produção e de comunicação, impõem as suas verdades como se fossem para o bem do Brasil. Resultado: As poucas famílias ricas ficam com 213,9 bilhões e as 11 milhões de famílias pobres ficam com 20 bilhões.

            Mas os ricos não se conformam. Apedrejam o governo dia e noite através da mídia, para derrubar os benefícios sociais. Ainda agora pressionaram até o Banco Central para elevar a taxas de juros, assim eles conseguiram ampliar mais um pouquinho as suas bolsas.

            Esse é apenas um dos motivos que exigem a democratização da comunicação no Brasil.

 

 

 

 

 

                       


 Privatização do sonho

 

 

O que Volta Redonda tem a comemorar aos 20 anos da privatização de seu sonho? Na verdade, a CSN-Cia. Siderúrgica Nacional foi entregue sem que soubessem o que estavam vendendo. Uma campanha prévia engendrada pelo “lobby” dos privatistas, possibilitou que a grande imprensa, em poucos meses transformasse a empresa num “monte de ferro velho que, se ninguém comprasse, teria que ser fechada, em função dos gigantescos prejuízos...”

 

            Para os trabalhadores da empresa, tudo isso parecia uma insanidade. Mas, além de preparar a opinião pública nacional, os amealhadores do patrimônio público, trataram de preparar também a comunidade local. Mandaram para cá um sujeito para presidir a CSN e ele tratou de inverter o jogo, anulando em parte a força do Sindicato dos Metalúrgicos que sempre defendeu a empresa e os trabalhadores.

 

Por aqui foi criado um novo aglomerado, onde o próprio presidente fazia suas pregações, insistindo com o testemunho pessoal de quem queria defender os trabalhadores, suas famílias, a empresa e a cidade, com um discurso de sabor amigo, mas passou a demitir os que ousavam pensar diferente. Logo todos estavam a favor da privatização. Não se ouvia uma voz contrária. “Isso aqui é uma empresa falida, um monte de ferro velho, mas nós podemos ganhar dinheiro com ela, comprando as ações no processo de privatização...blá,blá,blá...”.

 

Esse misto de medo e submissão tinha contrapontos na cidade, como algumas instituições respeitadas, órgãos da imprensa e pessoas que levantaram até ações judiciais por práticas lesivas ao patrimônio e ao meio ambiente, que existiam a partir do Congresso Nacional, contra esse “bom homem” que veio salvar a cidade. Afinal, ele não era inocente. Mas o projeto de entrega incondicional da CSN era o desejo daquele governo.

 

Os ministros apareciam durante os programas jornalísticos, para dizer que precisavam levar adiante o Programa de Privatizações, para resolver os problemas da educação e da saúde no país. Criaram um jornal diário para dar conta de impor as suas verdades, porque esse era um projeto que não poderia falhar. E não falhou. A mentira e o medo venceram capitaneados pela força do dinheiro, a prepotência, a arrogância e a covardia.  

 

A lembrança de todo aquele processo hoje nos revela a dimensão dos desmandos de um governo distante do povo. Cento e vinte dias após a privatização, quando ainda não havia tempo suficiente para que os novos donos conhecessem a empresa em toda a sua extensão, o mesmo espiroqueta ainda presidente, já proclamava que a CSN era a maior siderúrgica integrada do mundo. Para os que testemunharam o processo de perto, isso foi um descalabro, um acinte, um escândalo.

 

Para os empregados da empresa, tudo aquilo parecia um pesadelo que teria que passar, para que a normalidade voltasse a reinar. Mas desse pesadelo nem os trabalhadores, nem a cidade e a região e nem o país acordarão mais. Quase um ano depois, os novos controladores contavam que a todo momento tomavam posse de algo mais que nem tinham idéia quando compraram apenas uma empresa, afinal, a grande estatal era como um polvo, ao deter mineração em vários estados, fábricas de subprodutos em outras localidades, toda a logística de dimensão continental, fazendas, glebas em vários estados onde a empresa mantinha unidades,  imóveis em diversas capitais e muitas participações em unidades de saúde, educacionais, sociais, religiosas, esportivas, etc, etc, que a empresa fomentou para viabilizar o desenvolvimento de tantas comunidades, com o objetivo de sustentar o próprio projeto estatal de siderurgia ao longo de seu vitorioso curso.

 

Nesse processo, construído com o suor dos primeiros industriários brasileiros, construiu-se também o “know how” brasileiro na fabricação do aço, em projetos industriais, na introdução do processo de construção metálica e outros, tudo isso através da própria CSN e suas subsidiárias, empresas especializadas, que prestavam seus serviços para o Brasil e diversos outros países. 

 

Os que venderam a CSN, não venderam apenas os equipamentos de fabricação de aço instalados em Volta Redonda, venderam também o sonho de Macedo Soares de industrializar o país, a instituição do “novo trabalhador” brasileiro, a primeira grande indústria do país, o vetor do desenvolvimento do parque industrial do país, a usina Presidente Vargas e valores que sucumbiram como a história, a memória, o berço de uma nova cultura, o orgulho nacional, um imensurável patrimônio imaterial.

 

O assunto é amplo. A pergunta continua sem resposta: O que temos a comemorar? Continuaremos na próxima edição, trazendo as informações de como a privatização mexeu com a vida de todos por aqui, os entraves para o município, as reações pós-privatização, o enriquecimento de meia dúzia, o empobrecimento geral e a interrupção dos sonhos.

                                                                                                                                                                                                                                          (Publicado originalmente na edição de abril de 2013,

do jornal Volta Cultural-Volta Redonda)

                                                                              

 

 Trabalhar a cultura

 

 

 

 

        Hoje temos consciência da dimensão da cultura e sua importância para o desenvolvimento.

Estamos aperfeiçoando os meios para que essa importância tenha realmente vigência e vamos

caminhar sempre nesse sentido. O Brasil tem investido na disseminação de uma cultura participativa,

no sentido de ampliar a prática democrática. Entendemos ser este o melhor caminho para

um desenvolvimento de harmonia e prosperidade.

 

        - Mas que desenvolvimento é esse?

       

        Se ainda não temos claro o status futuro do que sonhamos hoje como uma sociedade melhor,

com dignidade e direitos, temos a certeza de que ela será formada por cidadãos livres e autônomos.

       

        É com essa visão que vemos o trabalho da cultura hoje:  promover a qualificação

da liberdade individual, como um novo abolicionismo, capaz de impulsionar uma autonomia habilitada

a criar a nova vivência.

       

        Por não conseguirmos definir previamente o caminho da ascensão humana,

devemos seguir passo a passo, a partir de nossa identidade enriquecida pela diversidade,

celebrando a cultura como a concebemos, regente de todos os nossos valores.

 

 

 

 

                   Entendo diferente

 

            Na abertura dos trabalhos do STF, neste início de fevereiro de 2013, representando a Presidenta Dilma, o Vice Presidente Michel Temer disse, em outras palavras, que espera mesmo do Judiciário a decisão final para as questões maiores do país, sobretudo nas dúvidas entre os poderes.  Entendo de maneira diferente.

            O Judiciário é a instância técnica responsável por zelar e fazer cumprir o direito à luz da Constituição, Códigos e demais dispositivos legais. É uma instituição do sistema democrático e por ele mantida. A sociedade através dos seus representantes, entre tantas, discute e aprova as Leis, regulamenta a investidura e nomeia os Juízes e o funcionamento do Judiciário. Aliás, o novo presidente da Câmara também entende que os três poderes tem o direito de exercer os seus poderes.

            O sistema democrático é, originalmente, representado pelos eleitos, isto é, pelo Legislativo e Executivo. Estes poderes, sim, refletem a vontade do povo. São os gestores, responsáveis diretos pela condução do país e, voto de minerva para dirimir todas as questões ainda não definidas e inscritas aos códigos, inclusive as pelejas entre os próprios poderes. Quando suas decisões não convencem o povo, que é o Grande Conselho Fiscalizador, são substituídos, uma vez que seus mandatos são temporários, ou seja, são à prova de democracia.

O cargo de Juiz, por exemplo, tem o caráter bem diferente.  Como é vitalício, mas nem por isso isento de erros, tem a missão limitada aos códigos previamente discutidos e aprovados pela sociedade, através de seus representantes, e as ações devidamente controladas por conselhos próprios. Portanto, a atual rusga que a imprensa vem promovendo entre o Legislativo e o Judiciário, é tão somente uma tentativa de criar um clima de instabilidade institucional, oportunizando um cenário apropriado para um golpe na democracia. Sim, porque não se pode creditar uma ameaça dessa natureza à eventual arrogância da suprema corte.         

 

 

 

                  Perdidos num desvão do tempo                   

 

 

 

            É impressionante como ainda existem pessoas que buscam o caminho da política e a participação em instituições, com a intenção apenas de se dar bem pessoalmente. Em pleno século 21, sob grave e inequívoca crise causada pela insustentabilidade do sistema, enquanto a avalanche se move de volta contra os promotores desses malefícios, vemos muita gente ainda articulando a continuidade pelo caminho que acabou, promovendo a destruição do rescaldo, ainda perdida na ilusão e tentando nadar contra a tempestade, enquanto praticam o mal à deriva da razão, da ética e da moral.

            Vivemos um momento muito especial e emblemático de nossa civilização. Para a economia há uma crise de gerência, enquanto os demais setores buscam justificar-se na crise econômica, sem se dar conta de que tudo está sendo condenado a rolar ladeira abaixo, inclusive a vida com a sua razão, valores e circunstâncias, porque aceitamos submete-la ao valor do dinheiro, apesar da sua dimensão sagrada. Diga-se, sua dimensão sagrada subjaz soterrada pela hegemonia da cartilha dos valores materiais, da qual emergiram circunstâncias destituídas de consideração e amor ao próximo, como a exploração, a ganância, a prepotência, a imoralidade e toda sorte de malefícios que deturparam, corromperam e arruinaram a vida em seu sentido e integridade, colocando-a a serviço de instâncias subalternas

            Acabou! Os remendos que ora são construídos darão apenas uma sobrevida a esse sistema, porque não há mais como os povos continuarem abandonando a sua razão de ser e de viver, para continuarem a produzir toda a riqueza necessária ao sustento do grande poder dos donos do mundo e seus bancos. A brincadeira acabou não porque o homem contemporâneo, através de sua nova consciência reassumiu, enfim, a nobre postura de seguir o seu caminho. Não! Acabou porque o próprio processo vem tropeçando em sua insustentabilidade, substanciada em mentiras, covardia, crescentes desacertos e não tem mais lenhas escusas para manter o fogo do mal.

            Estamos diante de uma encruzilhada. Se entendermos que vale a pena lutar contra a extinção da vida sobre o planeta Terra, se nos convencermos de que o importante é a vida, teremos que operar uma radical mudança em nossas relações sociais, praticando outra vivência, nova forma de subsistência, resgatar nossos valores originais e então corrermos em busca do nosso tesouro maior e descobrir que podemos conviver em harmonia e paz, constatando o verdadeiro significado do que disse Mahatma Gandhi: “Há no mundo o suficiente para todos. Não há o suficiente para a ganância humana.”

            Nesse novo mundo aprenderemos que o alimento principal é o amor, que quanto mais se dá, mais se recebe. Vamos constatar também que perdemos séculos em um desvio escuro do nosso milenar processo de evolução, sem percebermos que viemos de milhões de anos e seguimos numa caminhada para outros milhões de anos adiante, cultivando e valorizando o que realmente tem significado, mesmo durante essa fugidia passagem pela Terra. Afinal quem somos nós, o que fazemos aqui, por que e, para onde vamos?  Se tivéssemos a sabedoria para responder a estas perguntas, poderíamos desviar da cortina de fumaça e rumar para o nosso caminho real em paz.   

 

 

             Amigos agendeiros

 

                          2011 acabou. Deixemos com ele a nota de frustração que carregamos nos últimos anos.

            2012 vem repleto de perguntas sintomáticas sobre os novos rumos a serem descobertos ou redescobertos que viabilizem a continuação da caminhada humana na Terra. Tais perguntas emergem de um cenário precário e sufocante que construímos a partir de uma visão particular de um possível desenvolvimento. Quando consideramos os avanços em particular, verificamos que são fantásticos nos diversos campos das ciências. Porém, quando nos afastamentos mais um passo, para uma visão mais ampla, conseguimos constatar que, ao lado de belos feitos, tal modelo promove inaceitáveis distorções, deixam lamentáveis pegadas e comprometem sua própria continuidade. Um modelo insustentável.

                Com 2012, entretanto, todo o mundo se aproxima do espelho e as perguntas nos remeterão à necessidade de respostas originais e definitivas: – Quem sou? - Onde estou? - De onde vim? - O que faço aqui? - Para onde vou?  É um momento singular da nossa da civilização e exige reflexão e discernimento para utilizar com zelo a atual trajetória em rígida plataforma sobre a qual faremos as correções de rumo para os novos caminhos.

                Se até agora os compromissos da A21 estiveram carentes de função, preparem-se, está em suas mãos a lanterna que mostra a equação, cujas resultantes indicam a necessidade de formulação de perguntas que ensejarão as respostas indicativas dos primeiros movimentos para as novas direções. A cada passo será aplacada uma minúscula parcela de fome e de sede, de angústia e sofrimento, libertando o homem para a sua trajetória civilizadora.

            Estamos cientes das dificuldades, por ser uma questão cultural de forte musculatura, devidamente explicitada pelas ciências humanas, mas estamos igualmente cientes da viabilidade, por ser um sonho verdadeiro.

                 Um forte abraço a todos e um 2012 de ânimo, largos passos e muitos sorrisos.

 

 

 

 

 

                   Humanamente compreensível

 

           

            Mais uma vez estamos diante de uma crise institucional e, mais uma vez, os diversos segmentos buscam entendê-la segundo suas posições, desenhando a possível saída apontada para os seus campos de interesse.

            Há um velho dito popular que se aplica por aqui, em parte: “Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”. Os países centrais deixaram de responder pelos seus compromissos, feriram fortemente o sistema financeiro e globalizaram a crise que começa a atingir os países emergentes. Praticamente esse é o consenso, independentemente das cores dos clubes, apesar do reconhecimento de que essa não é uma crise trivial, que a insatisfação já botou nas ruas para as manifestações de protesto mais de mil cidades em todo o mundo e que, segundo a OIT, o desemprego já atinge mais de 200 milhões de pessoas.

            Na análise crítica recorrem à reinterpretação dos fundamentos dos tantos teóricos, alguns já superados, porque todos procuram por uma saída e, de preferência, o mais rápido possível, para poupar investimentos, minorar os danos... Enfim, evitar o cultivo de um espaço em branco grande demais onde possa germinar uma nova semente, afinal o momento é fértil, prenhe e ávido de conceber o novo.

            As revisões em busca de reinterpretar Marx e ajustar os pensamentos dos teóricos recentes e suas teses socialistas, positivistas, monetaristas, liberais, neoliberais e outras, voltaram à pauta.  Se não debelarem logo a ânsia, terão que tomar algumas colheres do suco puro da fisiocracia.

            Pois bem, estamos mesmo perdidos numa viela variante do nosso caminho civilizador? Teremos que refazer o nosso plano de voo para seguir o caminho desejado?   É certo que desejamos algum caminho e sabemos como alcançá-lo? 

            Os processos teóricos mais modernos, sobretudo os que sublinham as tratativas funcionais da economia, em função da importância da própria matéria, ganharam autonomia e sugeriram que o mundo deveria se adequar a um processo orientador. A partir daí, emitiram as normas baseadas nessa nova ordem, que acenava com a otimização do controle e com a garantia dos lucros crescentes, e botaram o mundo para girar a favor de quem teorizou e pôs em prática “a boa nova”.  Não é novidade que alguns processos teóricos não se orientam a partir de premissas originais.

            Voltando à vaca fria, desta feita assassinada pela insustentabilidade do capitalismo, citamos Bauman, para quem “o capitalismo avança com o que se pode chamar de destruição criativa”.  Mais correto, impossível. Fala-se no fim do capitalismo, como se fosse um ente capaz de se mover, de ter vida própria, tal a autonomia do sistema financeiro e a nossa subordinação ao regulamento disciplinador das relações. Enquanto nos debatemos em busca de uma saída, temos a sensação de que tentamos domar um dragão desconhecido. Afaste-se um passo, preserve o distanciamento crítico e verá que tentamos culpar o veículo por não estarmos no caminho certo.

            O capitalismo tem as qualidades que permitem a sua continuidade e não é culpado de nada. A decrépita e insustentável visão de que o espaço, assim como a expansão material, não tem limites, transformou as coisas em “commodities” e está transformando as pessoas em coisas, em busca de acelerar o processo e obter ainda mais lucros. É uma espécie de neo-escravatura, a ausência da convivência, da democracia, da necessidade das relações. Assim, o sistema financeiro globalizou o controle através das bolsas internacionais, não importando quem produz, porque o sistema é dono do balcão e todas as mercadorias são negociadas ali, segundo “a liberdade do mercado”, em detrimento das nações, das leis, das pessoas e dos objetivos de tudo isso.

            Portanto, podemos adotar qualquer sistema que ele não terá futuro, enquanto não pensarmos grande o suficiente para contemplarmos a existência e as relações do outro como essenciais. Por outro lado, em um cenário futuro de convivência saudável, – sim, sou otimista - onde se contemplam as necessidades do homem e suas relações originais, o planejamento tem objetivos claros e sustentáveis e o mercado é submetido à regulamentação, todos os sistemas tenderão a bom resultados.

            Neste ponto cabe uma reflexão. Quando desenvolvemos um pensamento crítico sobre qualquer setor da atividade, tendemos a delimitar a área de influência, como se aquela parte pudesse ser considerada de forma autônoma, ignorando assim a interdependência necessária à organicidade e sua sustentabilidade. Aliás, como tudo está ligado, cabe aqui uma complementação que entendemos fazer parte do rol das premissas originais: só com a plena assimilação e prática do conceito de sustentabilidade, planejaremos uma vivência efetivamente civilizadora, pois superaremos essa fase de construção material, passaremos a desfrutar da casa pronta e, aí sim, empreenderemos a grande obra em busca de equalizar as nossas relações. Superada a fase das coisas, alcançaremos o terreno dos valores, da vida, do sagrado.

            Lógico, há um caminho, teremos que fazer algumas lições de casa, aprender a ver, sentir e ter a consciência de que é isso que precisa ser entendido e atendido. É tudo humanamente compreensível, mas poderíamos ser melhores há mais tempo. Bertrand Russel disse algo como “o homem é um animal brigão e seu progresso tem sido muito lento”. E, mais uma vez, a lucidez de Bauman: “Pierre Bourdieu ressaltou que o número de personalidades do cenário político que podem compreender e articular expectativas e demandas está encolhendo. Precisamos aumentá-lo, e isso só pode ser feito apresentando problemas e necessidades.”  Considerem o problema apresentado.

                                                                                             

 

 

 

                                   Uma experiência mítica

 

 

            Quem foi ao Teatro do Sesc-BM assistir ao trabalho do Coletivo Teatral Sala Preta, intitulado Devir, na verdade participou de uma experiência ritualística que, do nosso ponto de vista, processou um ensaio sensorial em busca de pinçar vivências ancestrais que, experimentadas hoje, possam produzir elementos comparativos que possibilitem, através do resgate da memória, a autocrítica capaz de nos ajudar na equalização das relações contemporâneas.

            Um tanto filosófico, porém, justamente quando o ritual foi iluminado apenas pelo fogo de uma tocha, o teatro buscou, através do exercício dramático/sensorial, iluminar novos espaços, frutos dos signos que precipitaram das interações gestuais, já que o espetáculo não produziu falas, apesar da eloqüência emanada de uma espécie de espelho, onde nos foi possível visitar a nossa ancestralidade.

            Uma experiência pertinente aos propósitos do Coletivo Teatral Sala Preta, que parece buscar com ansiedade um devir como regeneração das relações humanas. A densidade da proposta fez com que o público fosse levado para o palco, todas as pessoas de uma só vez. Ocuparam cadeiras “em torno” do centro do palco onde a ação se insinuava para que interagissem com o trabalho minimalista e rico em signos sutis.

            A face esotérica ficou por conta das resultantes advindas das evocações transcendentais, como uma busca dos sentidos originais. Se por uma lado esse exercício parece nos distanciar dos objetivos imediatos, por outro pode muito bem acenar com ações futuras, com performances que nos permitam flagrar o quanto estamos fora da fila em nossa marcha civilizadora.  Por sua vez, o Devir será sempre a resultante da nossa faculdade de promover vivências produtivas, afinadas com a experiência antropológica que nos coube até aqui.

            Os quatro atores dialogaram com as entranhas antropológicas, com os mitos e a alteridade. Melhor que o trabalho e a eventual sinestesia alcançada, é a expectativa aberta pelo Sala Preta. O grupo avança pelo caminho teatral, aprofunda-se na pesquisa cênica, nas infinitas possibilidades performáticas dos atores, nos múltiplos recursos, no teor dramático e, certamente, encontrará um caminho novo, que facilite a transposição dos conteúdos atualizados, amparados pela estética apropriada. Por ora, o público teve que engolir seco sob a luz que se abriu em resistência, para se reencontrar e colocar os aplausos no papel, com certeza, produzindo os ruídos que cada um ali presente entendeu necessário para complementar o sentido da proposta.

            Podemos expor, cartesianamente, que o futuro derivará de um processo continuo de experiências sensoriais, que forem capazes de produzir os mitos nos quais ancoramos a nossa crença. Como não é simples, uma vez que se multiplicam as re-significações dos valores nas relações desse novo mundo, só mesmo o rito da experimentação nos mostrará o caminho.   

 

                        Criar é transcender

 

Nossa maior riqueza é a cultura. O maior artífice dessa riqueza é o ser brasileiro, o jeito caipira a contar e cantar os valores das terras, das águas, dos animais, os pássaros, as matas, a vivência no meio disso tudo, os caminhos, o transporte à cavalo, os romances sertanejos.

O Brasil tem o produto maior que é a capacidade de convivência, a criatividade, o jeito amigo e descontraído de estar com todos, inclusive com gente de qualquer parte do mundo. Esse é o traço cultural mais característico do brasileiro, a face talvez mais apreciada pelos não brasileiros e, por isso, há o desejo do “mercado” em transformar esses raros e caros valores em produtos.

Desde que sustentável, esse desejo é mais que bem-vindo, mas, como colocar esse produto na prateleira?  Isso é outro papo.

O “mercado”, com o sua premissa capitalista, estimula a ambição, fortalecendo esse ingrediente prejudicial ao desenvolvimento humano e sobretudo danoso ao contexto cultural. Os imigrantes que se aculturaram por aqui devem usufruir com especial sabor os valores originais da nossa cultura, mas estamos todos subordinados ao “sistema”.  Diante da hegemonia da ambição ditada pelo “mercado” os demais qualificativos humanos acabam sucumbindo juntamente com valores essenciais que o homem precisa para viabilizar o seu caminho para o viver e o conviver, em busca do verdadeiro desenvolvimento, que é o desenvolvimento humano.

Enquanto submete a sua curta vida no planeta Terra aos apetrechos que consegue manufaturar, ao invés de tê-los como contingência, o Homem abandona o principal sentido de sua existência que é o cultivo do Sagrado como manifestação da Vida. Acaba nem se perguntando quem é, qual o seu papel por aqui, de onde vem e para onde vai. Ainda no limiar do processo de superação de suas mazelas existenciais, perde-se curioso entre os valores materiais apresentados pelo “mercado” que, por sua vez, busca eficiência ao entretê-lo com consumidor de quinquilharias, enquanto desvirtua o original e elevado sentido da vida. Assim, quando falamos cultura, buscamos contemplar na grandeza do tema, esse sentido maior que é descortinar o caminho da superação em busca da redenção social através da informação e da plena e transcendente experiência da criação artística.

 

Todas as cidades são históricas

 

             A concepção de cultura inclui considerar que não há cidade que não seja histórica, pois, se é uma cidade, lá nascem pessoas que dividem o espaço de vivência, suprem suas necessidades, ajustam suas interdependências e sistematizam, em seu ambiente, através de seus próprios meios, um processo que busca viabilizar a continuidade daquele grupo. Esse processo dinâmico encerra o processo cultural daquela gente.        Tudo ali faz parte da história de todos dali e, ao mesmo tempo, é uma experiência inédita da aventura humana sobre a face da terra. É mais que desejável, é imperioso, que tal experiência seja do conhecimento de todos, por isso deve ser preservada e estudada.

             Memória é um conjunto de associações mentais oriundas das relações que temos das crenças, fenômenos, imagens e fatos históricos. Com os conteúdos do nosso presente, concebemos o passado, entendemos a permanência do tempo e nos identificamos como agentes de nosso processo cultural. Então nos valorizamos, valorizamos o outro e buscamos o caminho do nosso desenvolvimento rumo a plenitude estampada pelo conhecimento em nossas convicções.

             Um indivíduo que se vê tolhido de suas pegadas históricas, seja porque ele se perdeu ou elas foram apagadas, tende a ignorar a importância de sua origem e banalizar a sua existência. Com a ausência de referências, não se “considera” e não é “considerado”, erra pela vida e, como um herege, zomba da razão e da honra, constrói castelos de areia, de dinheiro ou de quinquilharias e nem mesmo saberá se segue algum caminho civilizador, pois não pode saber para onde vai quem não sabe de onde veio.

             Museu

             Aí está a importância do museu. É o lugar onde preservamos os objetos que ilustram nossa memória, para que possamos iluminar os nossos próximos passos. Temos capacidade de aprender com os erros e aperfeiçoar a nossa vivência com o nosso meio e as relações sociais, econômicas e políticas com o mundo. Isto é, conhecer melhor as coisas e suas causas, para fazê-las melhor.

             Uma cidade como Volta Redonda que nasceu a partir de uma experiência nova, vem sendo objeto de análises dos mais distintos interesses, sobretudo das ciências humanas e sociais. Mais que a necessidade de “um museu” para guardar a memória da cidade, ela mesmo, em si, é um museu que vem exigindo ser protegida e preservada como uma das mais instigantes experiências humanas que conhecemos. Uma cidade de história ímpar.

            Chamada de “um laboratório humano” por diversas cabeças pensantes das décadas anteriores, foi amparada e contemplada em suas necessidades, para que fosse viabilizada a vivência no entorno desse grandioso projeto, que foi o “Plano Siderúrgico”. Antes de tudo, um plano de desenvolvimento, mas também de ousadia, uma experiência rica em termos de cidade, seja pela concepção urbana, pela premissa social, pela perspectiva econômica e tantos outros ingredientes que aqui serviram de matéria prima para a consecução de seus melhores objetivos.

            Pela sua história e os valores que logrou construir, pelo planejamento urbano hierarquizado, as instalações e compromissos que suscitou dos entes Federal e Estadual, em nome de promover a assertiva dessa experiência, Volta Redonda é única. Seu valor histórico difere daquele concebido pelas “cidades históricas”, que conhecemos várias em várias partes do mundo. Ela é única. É um museu aberto a ser visitado por todo o mundo, para que se conheça esse extraordinário laboratório que deu certo e aprender com ele desde o planejamento, que contemplou o social, o ambiental e o econômico, de forma a amparar o desenvolvimento do homem que aqui viveria, trabalharia, criaria a sua família e plantaria o futuro para os seus filhos. 

 

                                                                              

 

 

 

 

 

 

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